Os Melhores de 2007 – Parte 1

Demorou, mas aqui está o listão. Ou melhor, o começo dele. Foi difícil separar uma lista dos dez melhores filmes de 2007 e também dos 10 melhores gibis do ano passado, mas agora tá na mão. Para não ficar um calhamaço sem fim de texto, dividi os melhores em quatro partes: primeiro cinco filmes, depois os outros cinco, e do mesmo modo com os gibis. Minha prioridade foi colocar o que de melhor foi produzido em 2007 – e não o que foi lançado no Brasil em 2007. Assim eu acho que a lista fica mais justa, e mais enxuta. Então, sem maiores delongas – e em ordem decrescente – os melhores do ano que passou.

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10. THE MIST

De Frank Darabont. Com Thomas Jane, Marcia Gay Harden, Laurie Holden.

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Adaptar os livros de Stephen King requer cojones. Frank Darabont ganhou suas credenciais para o trampo quando fez a obra-prima Um Sonho de Liberdade e, depois, À Espera de Um Milagre – ambos adaptados da obra de King. Mas ambos (assim como Conta Comigo, de Rob Reiner) não são exemplos do que tornou o autor famoso: seus contos de terror mais hardcore, levados ao cinema dezenas de vezes e só foram memoráveis em O Iluminado e Carrie – A Estranha. O motivo? Eles foram além das palavras. Stanley Kubrick e Brian De Palma enxergaram que o terror, na concepção de Stephen King, não é uma coleção de sustos fáceis ou de criaturas abomináveis. Somos nós. Frank Darabont escancara esse terror à perfeição em The Mist e, assim como Kubrick e De Palma, vai além. Na história da cidade tomada por uma neblina misteriosa (seria sobrenatural? Algum fenômeno atmosférico?), Darabont segue o texto de King à risca, aprisionando um grupo heterogêneo num supermercado enquanto algo espreita do lado de fora, na neblina. Mas é com habilidade que ele revela que, não importa o que esteja na névoa, o perigo reside em quem está preso, e em como o medo torna o ser humano irracional. Dosando com precisão momentos de terror explícito com aquilo que a gente imagina ser verdade, Darabont prova que é um dos grandes cineastas contemporâneos. Sem falar que o final de The Mist nasce clássico, em um retrato do desespero que poucas – pouquíssimas! – vezes o cinema teve coragem de retratar. É uma experiência única. E requer cojones.

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9. RATATOUILLE

De Brad Bird.

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E já se vão doze anos desde que a Pixar reinventou a animação com Toy Story. Mas o motivo não é a descoberta de uma ferramenta fabulosa na tecnologia digital, e sim redescobrir o prazer de apresentar uma boa história. Em oito filmes, o estúdio comandado por John Lasseter apresentou histórias saborosas, emolduradas por personagens memoráveis que fugiam de moldes morais rasos, para apresentar uma complexidade que não só era assimilada pelos pequenos, mas compreendida e aproveitada por adultos. Sua maior “realização”, no entanto, foi dar liberdade a Brad Bird. Na Warner ele fez o fantástico O Gigante de Ferro, e sua primeira empreitada com a Pixar foi o filmaço de ação Os Incríveis. Ratatouille, no entanto, surge não só como sua obra prima, mas também como o filme mais perfeito já realizado pela Pixar. Na história do rato que quer ser chef em Paris, Bird imprimiu uma humanidade ausente na esmagadora maioria das produções que entopem os cinemas – humanidade que nos permite sonhar, que mostra que podemos ser tão gigantes quanto nossas aspirações nos libertam. Remy, o rato, é o sujeito que sonha grande, e que não deixa um contratempo besta – ora, ele é um rato – ficar no caminho de seu sonho. Isso diz um monte não para a petizada que lotou os cinemas porque Ratatouille é lindo, mas para todo mundo com arcada dentária completa que, um dia, sonhou como ele.

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8. GRINDHOUSE

De Quentin Tarantino (À Prova de Morte) e Robert Rodriguez (Planeta Terror). Com Kurt Russell, Josh Brolin, Rose McGowan, Freddy Rodriguez, Bruce Willis, Rosario Dawson.

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Fora dos EUA, Grindhouse foi lançado como dois filmes, uma decisão comercial acertada. Mas uma decisão artística estúpida! A obra de Tarantino e Rodriguez não foi feita para ser mutilada, e sim aproveitada como uma experiência cinematográfica única, de mais de três horas de duração, intercalada por trailers sebosos de filmes que mal podemos esperar para assistir. Se a idéia era simular a sensação de aturar sessões contínuas de filmes vagabundos em pardieiros de quinta, Grindhouse é um vencedor. Minha sessão foi em um multiplex em Los Angeles, à meia-noite, com meia dúzia de incautos – e não poderia ser mais perfeita! Para mim, uma sessão “grindhouse” autêntica materializou-se repetidas vezes na adolescência, vendo podreiras em VHS com os amigos – indo mais longe, em matinês no extinto Cine Horizonte, de Maringá, que exibia sessões duplas de Conan, O Bárbaro com Mad Max 2 e filmes de kung fu (que eu testemunhei aos 9 anos). Planeta Terror e À Prova de Morte são perfeitos exemplares de cinema pop contemporâneo quando exibidos separadamente. Juntos, porém, são prova da formação de uma geração de cinéfilos à margem (e à prova) de intelectualismos idiotas e de análises que não procuram nada além de justificar o injustificável. Cinema como Grindhouse é uma experiência visceral e sem desculpas. Como o bom cinema deve ser.

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7. TROPA DE ELITE

De José Padilha. Com Wagner Moura, André Ramiro, Caio Junqueira.

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É caveira! Poucos filmes foram tão falados como Tropa de Elite. Menos ainda tiveram um público tão astronômico – seja do modo legal, no cinema; seja no modo preferido da rapaziada, como uma cópia pirata. Discutir se Tropa teria ou não mais público sem a polêmica que fez a alegria dos camelôs de todo o país é teorizar os Tostines. Mas o fato é que o filme de José Padilha é nervoso, como poucos tem coragem de ser no panorama ainda tão insípido do cinema nacional. Tropa foi visto, revisto e, além disso, foi assimilado. Seus diálogos viraram jargão pop; seus personagens, integrados à cultura nacional contemporânea; e o Capitão Nascimento, criado em uma interpretação brilhante de Wagner Moura, tornou-se uma das pouquíssimas criações cinematográficas brasileiras em todos os tempos a ter sobre vida. Sem falar que Tropa de Elite é um filme espetacular, que demonstra uma clara preocupação em, acima de tudo, ser cinema – e não tese furada, delírio autoral ou outra bobagem que domina o cinema feito por aqui. Tão genial, criou um debate sobre o que ele “é” ou “pretende ser” numa classe intelectual boboca que é incapaz de ver um filme de ação sem insistir em empurrar significados nas entrelinhas. O filme de Padilha, cru, violento e realista sem precisar ser documental, não precisa disso.

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6. SUPERBAD – É HOJE

De Greg Mottola. Com Michal Cera, Jonah Hill, Christopher Mintz-Plasse, Seth Rogen.

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Judd Apatow tornou-se a bola da vez no cinema ianque em 2007. Ele e sua trupe revigoraram a comédia com a força de um furacão. E a fórmula não poderia ser mais simples: faça rir, seja grosseiro e vulgar, mas não perca a ternura. Foi assim na improvável história de amor Ligeiramente Grávidos. E é assim no genial Superbad. A comédia de Greg Mottola segue a mesma tradição de Porky’s em colocar adolescentes na rota das descobertas sexuais. O “plano” do trio Seth, Evan e Fogell (McLovin!!!) é simples: levar birita para a festa na casa de uma gata e, assim, transar com seu objeto do desejo. A jornada, no entanto, é tão recheada de personagens “de verdade”, de insegurança, humor, lealdade, amizade, cumplicidade e camaradagem que o trio nem precisava se esforçar tanto. O roteiro, bolado quando Seth Rogen e seu chapa Evan Goldberg tinham 16 anos, não tem nada de original e inovador – e talvez por isso seja tão fácil se identificar com cada personagem, com cada situação. Afinal, todo mundo já fez besteira quando adolescente. Poucos, no entanto, conseguem transformar as besteiras em ouro. Ponto para Apatow e Cia. E pra gente, claro.

Fique ligado em Kapow! nos próximos dias para os cinco melhores filmes de 2007 – e os dez melhores gibis do ano!

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5 Respostas to “Os Melhores de 2007 – Parte 1”

  1. The Dude Says:

    Não tive a chance de assistir The Mist, mas pelas cenas perdidas na televisão, parecia bom.
    O que eu não entendo é essa “coisa” que as pessoas tem por “Carrie” e “O Iluminado” – ambos são uma porcaria. Tanto em um quanto no outro, ambos diretores destruíram e estragaram o livro. Aliás, parece que o Kubrick é especialista nisto, porque o trabalho dele em Laranja Mecânica foi um horror – e por alguma motivo qualquer, hoje em dia ele está na moda, mas se pegassem o livro para ler, veriam que não é nada daquilo que as pessoas pensam.
    “Carrie” é só uma adaptação ruim, como a grande maioria foi, mas “O Iluminado” é patético – Jack Torrance foi transformado em um maluco que, assim que você põe os olhos nele no filme, sabe que vai fazer besteira porque ele é claramente louco. No livro você percebe como ele vai se degradando, principalmente por causa da bebida, até chegar ao ponto que chegou. Ele vai “descendo a ladeira” aos poucos, enquanto no filme já é visível que não é preciso muito para ele pirar de vez.
    É engraçado como ninguém leva a sério o próprio Stephen King que detestou a adaptação, preferindo concordar com as “autoridades” do cinema que transformaram o Kubrick em um deus, e em tudo o que ele fez, em obra de arte – desculpe-me, mas ele foi altamente medíocre.

  2. Edgard Says:

    Nossa… esse aí em cima é um sujeito estranho…. No mínimo deve ter gostado da adaptação de Christine…. he he he
    Gostei da lista…. faltou O Ultimato Bourne e Transformers, e Ratatouille merecia subir uns degraus…. mas como é uma lista pessoal, e eu particularmente não colocaria Superbad numa lista de melhores do ano (pelo menos não num ano tão bom para o cinema como foi 2007…), valeu para conhecermos a opinião de um cara que a gente gosta muito… concordando ou não.
    Agora esse papo do Kubrick…. não gosto de tomar opiniões pessoais como verdades… e nem é correto impor aquilo que eu acho ou penso….
    Tô doido pra ver o Top 5….

  3. tyller Says:

    por enquanto a lista tah boaaa sim, mas colocar “transformers” numa lista de melhores naum “fecharia”. Os efeitos sao otimos, mas e muito barulho, gritaria, e o Sr. Michael bay nao esconde que so sabe fazer isso. Divertido. Nada mais. Que venha os outros filmes…..

  4. Alipio Says:

    Senhores, nao esqueça que é um Top 10 dividido em 2 partes.
    De qualquer forma, apenas lamento nao ter visto The Mist, gosto muito do trabalho do Darabont.

    No caso de O Iluminado, alguns chegam a dizer que o filme é ainda melhor do que o livro..

  5. Daniel Says:

    Meu Deus.. me recuso a acreditar no comentário do colega “The Dude”, se o “The Dude” se refere ao GRANDE LEBOWSKY com certeza a mentalidade sua é bem semelhante a do personagem, não é possível alguem não gostar do mestre Stanley Kubrick… sem contar que é a primeira pessoa que vejo falar que o livro “O ILUMINADO” ficou melhor que o filme. Este é o mesmo caso que aconteceu com FORREST GUMP, o livro não chega nem perto do filme. Tenho certeza que todos que admiram o cinema, o perdoam por tal comentário infeliz como : “desculpe-me, mas ele foi altamente medíocre”, pois certamente você não estava em estado normal.

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