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Incrível, é o Hulk!

quinta-feira, 12 junho, 2008

Semana passada, entre Praga (no set de GI Joe) e de volta a Londres (dando um pulo nas filmagens de The Wolfman), peguei uma sessão de O Incrível Hulk. Ainda bem que a agonia do “eu vi primeiro, eu vi primeiro!!!” ainda não me contaminou. Nada como dar um tempo para digerir o filme com cuidado, prestando atenção em detalhes e, na hora de compartilhar a experiência com vocês, a coisa não sair destrambelhada. Vamos ao verdão. O filme de Louis Leterrier é, afinal, bom? A resposta, com certo alívio, é sim. Seguindo o caminho aberto por Homem de Ferro no começo da temporada, o segundo filme da Marvel é uma aventura acelerada, bem resolvida e contida em pouco menos de duas horas, mas com uma enxurrada de referências que deixa os fãs salivando para 2010, quando o estúdio libera mais dois filmes. Ainda assim, O Incrível Hulk não é uma aventura tão satisfatória e completa como Homem de Ferro. Para resumir o problema, o filme não é cool o bastante.

Como eu mesmo já comentei na reportagem de capa da edição de junho de SET, O Incrível Hulk é um restart da série, e em nada se relaciona com o filme que Ang Lee dirigiu em 2003 – diga-se, um filme nunca menos que espetacular. Mas aparentemente os fãs queriam o bom e velho “Hulk esmaga!”, e não o épico introspectivo e cerebral de Lee, com direito a um clímax psicodélico que Frank Brunner não conseguiu tecer nem nas tramas mais alucinadas do Dr. Estranho. Além disso, com O Incrível Hulk a Marvel buscou um filme que se encaixasse na concepção de seu “universo cinematográfico”, mais coeso e interrelacionado, em que personagens de filmes diferentes habitassem o mesmo mundo. Assim, o filme de Louis Leterrier chega coalhado de referências ao mundo Marvel dos gibis – ainda mais que Homem de Ferro. Além de óbvias referências às Indústrias Stark, são mencionados a SHIELD (e seu diretor, Nick Fury), Jack McGee e Jim Wilson (personagem da série de TV e dos gibis, respectivamente) e, de forma onipresente, o Capitão América. Muito mais do que possa se imaginar…

O filme começa com um rápido flashback da origem do verdão – mais uma vez longe dos gibis, agora próxima à da série de TV – e logo nos coloca na favela da Rocinha, no Rio de Janeiro. Bruce Banner (Edward Norton) está escondido, trabalhando numa fábrica de refrigerante, e procurando não só controlar a fera que habita seu corpo, mas também um modo de eliminá-la de vez. Ele é descoberto pelo exército e logo o General Ross (William Hurt) arma uma tropa para trazê-lo de volta. Até então, o caos trazido pelo Hulk é discreto, fica restrito às sombras – mas sua presença incomoda o soldado Emil Blonsky, que logo torna-se obcecado em capturar a fera. Ou, como fica lentamente claro, em conseguir seu poder. Para tanto, ele submete-se a uma experiência conduzida por trás das cortinas pelo General Ross, que coloca as mãos no Soro do Supersoldado, desenvolvido na Segunda Guerra Mundial, para aplicá-lo em Blonsky. Assim, o soro que criou o Capitão América é usado, e o Hulk, agora acuado no campus de uma universidade, quando Banner reaproximou-se de Betty Ross (Liv Tyler), enfrenta Blonsky versão Supersoldado. Com o fracasso, é questão de tempo até Emil ter seu sangue contaminado por radiação gama, e o resultado é a criação do Abominável e um impressionante quebra-pau nas ruas de Nova York.

O bacana em O Incrível Hulk é que todas essas seqüências são amarradas com velocidade, mas a mudança de atitude de Banner em relação a seu alter-ego nunca parece apressada ou sem motivação. Aos poucos ele percebe que seu destino pode, sim, estar ligado à criatura de maneira positiva, mesmo que ainda incontrolável. Ao contrário do Hulk mostrado no filme de Ang Lee, desta vez o monstro verde parece desenvolver mais inteligência a cada transformação, como uma criança que aprende com os erros e raciocina soluções, ainda que num nível muito primário. É claro que os fãs vão adorar quando ele finalmente berrar seu “Hulk esmaga!” tradicional! Além disso, claro, os fãs vão adorar o modo como O Incrível Hulk encaixa-se no mundo sugerido em Homem de Ferro e o expande. Um exemplo de que esse é definitivamente um mundo hiper-realista são as armas sônicas que o exército utiliza contra o verdão – mais gibi, impossível. Embora a participação de Leonard Samson (Ty Burrell) seja tímida, o cientista Samuel Sterns (Tim Blake Nelson) tem papel decisivo na trama, mostra óbvia fascinação pelas implicações biológicas abertas pelo Hulk e despede-se de cena com uma introdução nada sutil a seu alter-ego, o Líder (talvez num próximo filme…).

Uma cena que ficou de fora, no entanto, foi um prólogo no Ártico, em que Banner possivelmente encontraria o corpo congelado do Capitão América – cena confirmada para este que vos escreve por Leterrier e pelo produtor Kevin Feige. Um rápido telefonema e Feige me conta que eles decidiram não incluir a cena por destoar do resto do filme, por ser uma cena mais pesada – mas ela não só estará disponível online em breve como será disponibilizada no DVD do filme. Mais uma cortina de fumaça? Para garantir, é bom ficar até o fim dos créditos mais uma vez… (Ah, essa não é informação “exclusiva” porque isso é o conceito mais estúpido do planeta…).

O que nos traz de volta ao fator “O Incrível Hulk é bacana, mas não é cool”. Existem coisas que são intangíveis, reações que terminam sendo particulares com a bagagem e a expectativa de cada pessoa na sala escura. Homem de Ferro trazia uma energia dinâmica, representada pelo imprevisível Tony Star de Robert Downey Jr (que aparece em O Incrível Hulk com mais ecos do que pode ser tornar Vingadores em celulóide). O filme de Jon Favreau é elétrico, é uma experiência narrativa e também sensorial. Sob esse prisma, não existe absolutamente nada de errado em O Incrível Hulk. Apesar de algumas soluções apressadas no roteiro – e a geografia por vezes implausível -, o filme é dirigido com firmeza, mesmo em suas porções mais dramáticas. Não deixa a desejar como filme de ação – em especial o clímax, que mostra o encontro de duas criaturas de poder inimaginável. O elenco funciona à perfeição, especialmente Ed Norton. É bem humorado na medida certa e traz mimos para os fãs repetirem a dose.

Mas, inexplicavelmente, não agarra pelo estômago, não é eufórico e não traz impressões duradouras como, mais uma vez, Homem de Ferro. Pode ser que o cuidado extremo, causado pela lembrança ainda firme do Hulk de Ang Lee, tenha arrancado um pouco da espontaneidade do filme. Talvez o personagem se preste mais à introspecção que o colorido vingador dourado. Homem de Ferro é definitivamente cool. O Incrível Hulk é um filme jóia. Se isso é pouco, o veredito está em suas mãos.