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errr… Melhores HQs de 2007, parte 1

terça-feira, 19 agosto, 2008

O que posso dizer? Obrigações se atropelaram, mudanças ocorreram e a rotina mordeu um naco generoso de meus neurônios pop – como conseqüência, a lista de melhores gibis de 2007, finalizada pós-Carnaval, ficou guardadinha, esperando seu lugar ao Sol. Como boa parte das histórias a seguir sequer foi publicada no Brasil, o Top Ten 2007 Kapow! de HQs (pomposo, não?), permanece atual. Ah, vale explicar alguns critérios: basicamente, não entram republicações no bolo e, com uma única (e explicável) exceção, todas as histórias a seguir viram a luz ano passado – também não dividi entre “nacionais” e “gringos” porque, afinal, uma boa história é uma boa história, e ao inferno com sua origem. É, desculpas, desculpas… Sem mais delongas, vamos ao listão – a primeira parte vai hoje; a segunda, amanhã.

10. ALL-STAR SUPERMAN #9

(Texto: Grant Morrisson; Arte: Frank Quitely)


Grant Morrisson faz tudo parecer muito simples. A cada mês, All-Star Superman desfila as melhores histórias do Homem de Aço em décadas sem que elas precisem de um mega-crossover para funcionar, sem edições especiais, sem tomos de capa dura. No confinamento de um gibi comum, Morrisson desvenda o que faz o Superman ser o maior de todos os heróis, com uma reverência à sua história que nunca resvala na estupidez e no revisionismo. A cada edição, o escritor esmiuça uma parte da personalidade do herói, e no processo o torna mais humano – o que é uma contradição, já que na série o Superman está morrendo por overdose de poder e encontra-se mais forte do que nunca. Aqui, ele confronta dois Kriptonianos que tentam reerguer a “glória de Krypton” na Terra” à força, até serem derrotados por sua própria mortalidade. Alguém tem dúvida que All-Star Superman estará nessa lista novamente ano que vem?

9. THE UMBRELLA ACADEMY

(Texto: Gerard Way; Arte: Gabriel Bá)


Não é que eu tinha um pé atrás com uma série assinada pelo vocalista da banda emo My Chemical Romance: eu tinha certeza de que não passava de egotrip do astro do rock. Mas aí li a primeira edição. E havia algo muito peculiar neste grupo/família de super-heróis – uma mistura mais psicodélica de Quarteto Fantástico com X-Men – que se reúne em circunstâncias bizarras. Encarei a segunda edição e já era tarde: Gerard Way deixou de ser “o sujeito do My Chemical Romance” para se tornar um dos escritores mais promissores a aterrisar nas HQs, misturando a sensibilidade grotesca de Grant Morrisson em Patrulha do Destino com a dinâmica de anti-heróis que Chris Claremont imprimiu nos X-Men em seus tempos áureos. A arte, então, é um capítulo à parte. O brasileiro Gabriel Bá (que eu sempre confundo com seu irmão, Fábio Moon, foi mal, Bá) aperfeiçoa em seu estilo ecos de Mike Mignola sem nunca perder a identidade que o destacou ainda no quadrinho independente brasileiro. Ele abraça o “gênero super-heróis” com voracidade, ainda que seja tão distoante do mainstream: é arte de fato.

8. ASTONISHING X-MEN #23

(Texto: John Whedon; Arte: John Cassaday)


Habitando um universo compacto dentro dos próprios meandros editoriais da Marvel, a série bancada por Whedon e Cassaday é a melhor tradução dos heroi mutantes desde que Grant Morrisson os reinventou com os trajes de couro negro. Mas, nas mãos do criador de Buffy, X-Men é uma equipe de super-heróis sem entrelinhas, e Whedon sabe exatamente como nos enamoramos dos mutantes em primeiro lugar. Nesta edição em particular, recentemente publicada no Brasil, ele engloba tudo que faz dos X-Men os melhores: o melodrama, a ação hipercinética, a personalidade bem definida de cada um e um “flashback” espetacular, que me fez voltar a duas, três edições atrás com um “ah, fala sério!” gigante estampado no rosto. “A mim, meus X-Men”, entoado por um Ciclope mostrando porque afinal é o líder da equipe, é de arrepiar – assim como a conclusão desta saga.

7. SHORTCOMINGS

(Texto e arte: Adrian Tomine)


Criador da espetacular série Optic Nerve, Adrian Tomine é um historiador do homem comum. Como poucos autores – em qualquer mídia – ele entende que o mundo contemporâneo vive mergulhado em sarcasmo, mesmice, correção política e outras doenças modernas que parecem travar nossa evolução como espécie. Caso em questão, o gerente de cinema Ben Tanaka, protagonista de sua primeira graphic novel. De origem nipônica, ele namora com Miko, uma descendente de japoneses (que vive para “reafirmar” sua herança) e sua melhor amiga é outra nissei, lésbica, que não dura muito em nenhum de seus relacionamentos. Quando Miko dá um break e vai morar em Nova York, Ben aproveita para fazer um balanço de sua vida – o que não significa nenhuma introspecção, ou o menor esforço para ele lidar com sua total inabilidade em se relacionar com pessoas, e sim sexo com mulheres diversas (e não-asiáticas, de preferência) e a demolição de cada bobagem erguida pela juventude “correta” contemporânea – “artistas” e “malditos” muito parecidos com os indies brasileiros. De traços econômicos, Tomine faz seu discurso sobre intolerância e preconceito disfarçado de dramédia romântica moderna. Mas sua intenção não é doutrinar ou tomar partido: é mostrar como as pequenas coisas mudam o rumo de nossa vida. E ser um cronista das pequenas coisas é o que faz dele – e de Shortcomings – grande.

6. A MORTE DO CAPITÃO AMÉRICA

(Texto: Ed Brubaker; Arte: Steve Epting)


Matar um personagem de relevância, na esmagadora maioria das vezes, é recurso de roteirista capenga ou desespero da editora por baixas vendas. Bom, Brubaker está longe de ser “capenga” e nem a Marvel ou o título do Capitão América estavam mal das pernas. Ainda assim, sobrou a terceira alternativa para tirar Steve Rogers de cena: contar uma boa história. Desde que Brubaker (e o incomparável Steve Epting) relançaram o título do Capitão há mais de dois anos, ele tornou-se menos um “super-herói” e mais uma trama de ação e espionagem, um James Bond com mascara. Veio a Guerra Civil, heróis tomaram lados e Steve Rogers foi preso – no epílogo, terminou assassinado justamente por Sharon Carter, sua amante, que tinha a mente controlada pelas maquinações do Caveira Vermelha. O mais impressionante é que, depois da morte de Rogers, o título manteve-se com o mesmo ritmo e o mesmo senso de urgência, com o plot politico de Brubaker desenvolvendo-se ao mesmo tempo em que aumentavam as apostas de quem seria o próximo a empunhar o escudo do herói. Um ano se passou. Steve Rogers continua morto. As conseqüências são sentidas com força no atual blockbuster Secret Invasion. E Capitão América continua sendo um dos títulos mais sólidos da Marvel.

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